Wednesday, April 13, 2011
E no O Povo de hoje uma revista comemorativa do aniversário de Fortaleza tenta traçar um perfil do fortalezense. Para além do cidadão bem humorado, que sabe receber bem seus visitantes e orgulhoso das praias ensolaradas que frequenta, as reportagens expõem também o lado preconceituoso dos moradores de Fortaleza (lembrando o episódio de intolerância que marcou a praça da Gentilândia), o desejo de fuga dos moradores que vislumbram mudança para outros estados (sem surpresa alguma, RJ e SP aparecem como os principais destinos, segundo pesquisa do Iepro), a baixa auto-estima que faz o fortalezense tão inseguro questionar a beleza da sua terra. Ow Fortaleza... que grande merda fizeram com a tua cabecinha. Entregue a homens e mulheres que não souberam te amar... Gente envergonhada da forma como fala, se escondendo no humor, no deboche... Você me desculpe. Talvez eu esteja pessimista demais e tanto riso talvez signifique coragem, uma forma única e demasiado humana de sobreviver... arma de um povo que conhece o sofrimento. Talvez, Fortaleza, você não seja aquilo que seu nome ameaça... Antes de prender, há certo gosto em entregar tuas crias para o mundo. Somos os judeus brasileiros, não somos? A fuga dos teus moradores, não é fuga, é o voo alto daqueles que aprenderam a aproveitar a força dos teus ventos, daqueles que recusaram se deixar enlouquecer por essa ventania que nunca termina, como naquele filme de Almodovar. E talvez a insegurança sobre sua beleza seja apenas alguma forma de humildade dolorosa. De todo modo, nesse dia nublado, nesse dia em que tuas luzes estão discretas e teu asfalto tomado pela chuva, olho pela minha janela e por entre os prédios sempre em construção, em meio as buzinas de uma Santos Dumont sufocada, te acho uma cidade tão triste. Fortaleza, cidade pouco amada, parabéns pelo teu aniversário.
Wednesday, February 06, 2008

Fridge Watcher
Seu quarto, sua gaveta de cuecas, sua agenda, seu e-mail, sua geladeira...
Esses são alguns exemplos de onde costumamos espalhar nossa intimidade. Somos tão espaçosos que resolvemos soltar por aí vestígios e pistas de quem somos. Que tal, então, dar uma conferida nos vestígios da vida alheia, hein? Não, juro que não estou falando do Big Brother. É o seguinte... um cara resolveu criar um blog pra postar fotos de geladeira.
...
ok... O grande lance é que pessoas do mundo inteiro tiram fotos do interior da sua geladeira e mandam pro blog. O resultado é interessantissimo. De repente, os italianos nao comem só massa e os franceses também nao são tão saudáveis. E aqueles países exóticos como Croácia ou Finlandia parecem mais exóticos depois de conhecermos algumas de suas geladeiras.
É claro que essa geladeira é dos Estados Unidos, né? Fácil descobrir pelas dimensões cavalares das garrafas e potes....
Aé segue o link:: http://www.fridgewatcher.com/
Thursday, January 03, 2008
O Amor e a Loucura
"No Amor tudo é mistério: suas flechas e sua aljava, sua chama e sua infância eterna. Mas por quê o amor é cego? Aconteceu que num certo dia o Amor e a Loucura brincavam juntos. Aquele ainda não era cego. Surgiu entre eles um desentendimento qualquer. Pretendeu então o Amor que se reunisse para tratar do assunto o conselho dos deuses. Mas a Loucura, impaciente, deu-lhe uma pancada tão violenta que lhe privou da visão. Vênus, mãe e mulher, pôs-se a clamar por vingança, aos gritos. E diante de Júpiter, Nêmesis - a deusa da vingança - e de todos os juízes do Inferno, Vênus exigiu que aquele crime fosse reparado. Seu filho não podia ficar cego. Depois de estudar detalhadamente o caso, a sentença do supremo tribunal celeste consistiu em condenar a Loucura a servir de guia ao Amor eternamente.”
La Fontaine.
Monday, August 13, 2007
Juliana.
Sempre fora invejosa; com a idade aquele sentimento exagerou-se de um modo áspero. Invejava tudo na casa: as sobremesas que os amos comiam, a roupa branca que vestiam. As noites de soirée, de teatro, exasperavam-na. Quando havia passeios projetados, se chovia de repente, que felicidade! O aspecto das senhoras vestidas e de chapéu, olhando para dentro da vidraça, com um tédio infeliz, deliciava-a.
(...)
E nunca tivera um homem; era virgem. Fora sempre feia, ninguém a tentara; e, por orgulho, por birra, com receio de uma desfeita, não se oferecera, como vira muitas claramente. O único homem que a olhava com desejo tinha sido um criado de cavalariça, atarracado e imundo, de aspecto facínora; a sua magreza, a sua cuia, o seu ar domingueiro tinham excitado o bruto. Fitava-a com ar de buldogue. Causara-lhe horror - mas vaidade. E o primeiro homem por quem ela sentira, um criado bonito e alourado, rira-se dela, pusera-lhe o nome de Isca seca! Não contou mais com os homens, por despeito, por desconfiança de si mesma. As rebeliões da natureza, sufocava-as; eram fogachos, flatos. Passavam. Mas faziam-na mais seca; e a flata daquela grande consolação agravava a miséria da sua vida.
Trecho de O Primo Basílio.
Tuesday, February 13, 2007
Dois ou três almoços, uns silêncios.
Há alguns dias, Deus - ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus - , enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.
Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer - eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal - não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de "minha vida". Outros fragmentos, daquela "outra vida". De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos.
Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.
Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector "Tentação" na cabeça estonteada de encanto: "Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível". Cito de memória, não sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também ruivo, que passa acorrentado. Ele pára. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa. Ele se vai. E nada acontece.
De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não-pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou - descuidado, também - em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito jóias encravadas no dia-a-dia.
Era isso - aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria.
Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome.
Caio Fernando Abreu
Há alguns dias, Deus - ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus - , enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.
Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer - eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal - não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de "minha vida". Outros fragmentos, daquela "outra vida". De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos.
Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.
Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector "Tentação" na cabeça estonteada de encanto: "Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível". Cito de memória, não sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também ruivo, que passa acorrentado. Ele pára. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa. Ele se vai. E nada acontece.
De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não-pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou - descuidado, também - em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito jóias encravadas no dia-a-dia.
Era isso - aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria.
Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome.
Caio Fernando Abreu
Tuesday, December 12, 2006

O Labirinto do Fauno.
Quatro meses parado, hein? Foda. Não esperem justificativas nas linhas q se seguem porque vocês não vão encontrar... quem tiver interessado em descobrir o causa do hiato é só me perguntar próxima vez que a gente se ver, ok?
Agora vamos falar de filme! Mais alguém tava desejando um filme com temática fantástica por ae? E que ainda por cima empregasse elementos maravilhosos? E que fosse de bom gosto? E que desse vontade de comer bolo de chocolate com um copo de leite?
Pois eu tava doido por isso. Fazia muito tempo que eu não assistia a um filme tão bonito... tão forte e dramático como os contos de fadas são e devem ser. E assim é o Labirinto do Fauno. Uma análise estruturalista do filme mexicano revela alguns elementos presentes nos contos de fadas, porém essa inspiração no tradicional definitivamente não faz o filme perder nem um pouco sua originalidade.
A Guerra Civil Espanhola como cenário para a história da triste Ofélia suscita interpretações maiores e possibilita analogias entre a menina órfã que sonha com um mundo mágico onde reinará como uma bela princesa e o povo espanhol que sonha com uma nação democrática.
Não há ninguém por Ofélia, assim como não há ninguém pelo povo. A menina deve encontrar em si a força para superar a morte da mãe e a crueldade do padrasto. Da mesma forma é o povo na sua condição de oprimido pelo fascismo.
Como eu disse... são várias as analogias possíveis. Preparem-se para um filme de gente grande que fala de sonhos e magia.
Tem viagem melhor que transitar por mundos encantados?
Saturday, August 19, 2006

Zefinha – Volume II!!
Nossa adorada Zefinha lançou recentemente seu segundo CD intitulado Zefinha & A Sanfona de Ouro arrochando o nó. Esse segundo volume segue a mesma linha confessional do primeiro grande sucesso da nossa cedrense mais pop, o Zefinha & A Sanfona de Ouro Ao Vivo.
Depois dos inesquecíveis hits Rua Vagabundo (sem vírgula mesmo, ok?), Não Tenho Tempo de Quengar e Rapariga do Alto do Pandeiro, Zefinha apresenta nesse novo trabalho letras mais complexas e introspectivas, como Por Favor (na foto acima Zefinha está dançando o refrão dessa música... nham... nham...nham...), Moto NX e Cidade de Quixelô.
O novo álbum de Zefinha também conta com três regravações de sucessos do primeiro CD. São elas: Chove lá fora, Menino de 18 anos (simplesmente perfeita) e Arrocha o Nó.
Como nem tudo são flores é impossível não sentir falta das introduções explicativas presentes em algumas faixas do CD ao vivo, onde Zefinha fala do que lhe inspirou a compor cada canção.
Para quem quiser saber mais sobre Zefinha & A Sanfona de Ouro aí segue o link da comunidade dela no orkut. http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=1261512
Esse post é dedicado a todos os fãs da original... da brejeira Zefinha!!!
E principalmente para Sucrilhos que me apresentou o trabalho da maravilhosa Zefinha.
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